quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O contraste

Andaste por longe
Tua face não vê mais a minha
As roupas permanecem intactas
Os lençois então, nem se fala
Eles continuam alinhados com a forma do teu corpo
E tua escova de dente ainda possui a pasta da última escovada.
Eu, com uma saudade infantil
E com a sensação de uma mãe que perdeu seus filhos
Preferi deixar tudo da mesma forma que tocaste da última vez
Não quis alinhar os lençois, muito menos lavar a escova
Caminho pelo quarto, de um lado para o outro
No corpo, carrego sua velha camiseta branca básica, aquela que você adorava usar para ir até o parque
Na face carrego a tristeza sa solidão e a inconformidade com os fatos
Em cada pulso, ando com uma fralda de pano amarrada, que significa os dois anjos que me tiraram
Na mão, carrego a porcelana, aquela do café da manha de cada dia em que eu tomava meu chá de camomila.
Não deixo o sol entrar, a casa anda cheia de pó e mofo
Morro de medo que ele possa modificar qualquer coisa nesse lar
Também não deixo absolutamente ninguém subir
Os únicos que as vezes dão as caras ,são verbos, adjetivos e substantivos, mais todos são tristes
No espelho ainda há a foto de nós dois e nela eu ainda tinha um ventre avolumado de 5 meses, e o mais legal, tinha aparência feliz.
Olho e logo me culpo
Lembro deles dizendo
"as contrações são psicológicas"
Me fizeram dormir, amor
Para eu poder não sentir a dor do parto, que na verdade foi o aparto
Após isso seguimos caminhos diferentes
Miguél e Vitória no céu
Você saiu para pensar, e na verdade foi é buscar um caminho novo
E eu? eu continuo aqui olhando e pensando na vida que era para ser
Agora já não visto mais sua camiseta
Faz um tempo que caminhei até o quarto e tirei o longo vestido de noiva do guarda-roupa
Ele está amarelado, mais ainda continua guardando boas lembranças.
Coloco-o em meu corpo
E com uma tesoura, corto um pedacinho da roupa dos abortados, e um pedacinho da sua
Costuro elas com uma linha branca no vestido, assim sinto vocês mais próximos
Prendo o cabelo de forma descomunal
Passo uma maquiagem envelhecida, e saio pela porta
Vou pelas escadas, e logo saio na avenida
Boto meus pés descalços no chão, e saio caminhando
Caminho bem pelo meio
E prefiro andar de pés descalços,assim consigo sentir tudo mais de perto
Tudo da forrma que realmente é, sem ter nada para amortecer
Pois na minha vida, nada foi amortecido
O transito para,
Logo escuto os gritos : "Tirem essa louca dai"
Eu apenas escuto, e continuo caminhando,
Arrastando o longo vestido branco pela avenida,
Derramando minhas lágrimas de dor,
E pensando o porque de não ter sido diferente.
Deixo a porcelana cair,
Ela quebrou,
E mais uma vez, meu coração suportou.

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